terça-feira, 29 de abril de 2008

permita-se

Porque querer
E insistir neste querer
Sem saber se há poder

Não sou para se ter
Nenhum objeto qualquer
Não nasci para pertencer

Posso até ser
Se você deixar que seja
Para que sejamos então

quarta-feira, 26 de março de 2008

Metamorfoseante

Acordo de mau-humor
Sobrancelhas franzidas sempre
Olhos semi-aberto porque a claridade do dia os afetam por demais
Daí você já pode concluir o que me levar a ser um cara que adora a noite
Mas sempre de olhos bem abertos

Sou um ser pensante,
Aliás, detesto tudo que não pense ou não me leve a pensar,
Sempre pra frente, sempre pensando, compartilhando e aprendendo.

Sou angustiado por natureza,
Muitas idéias sempre! Vivo num eterno “brainstorm”
Por isso muitas vezes o silêncio

Deixei para trás muitas coisas
Por opção, por ocasião, por necessidade, por imposição
De uma forma ou de outra a gente sempre acaba se adaptando e descobre que Charles Darwin, de uma forma ou de outra, estava certo em suas afirmações... precisamos sobreviver!

Muitas das coisas que vivi lá atrás, trago comigo sempre
Mesmo que estejam guardadas dentro de um bauzinho azul com um cadeado
Vez ou outra me pego relendo minhas lembranças e revivendo o que lembrei com a máxima precisão...
Sou a soma de tudo que fui... a mutação de um ser

Adoro trabalho... preciso participar e ajudar
Mas também preciso de férias a cada seis meses
É o tempo máximo que consigo tolerar-me numa rotina... mesmo que progressista
Chega uma hora que começo a dar “tilt”
E daí em diante o cérebro funde...

Mas preciso mais ainda de som, praia, campo e montanha
Preciso de um dia claro, boas ondas no mar e uma galera pra tirar uma onda
Preciso de verde, rede, cavalgar, vacas e cheiro de bosta de vaca e um churrasco de vaca cagona...
Preciso de serra, caminhar entre arvores, ouvir os pássaros bem de perto, barulho de água caindo, cachoeira e acampamento...
Preciso de bebida, cigarro e... the doors topado “nos último”, pode ser também led zeppelin ou raul... mas se não tiver, adoraria djavan

Sou simples
Não tenho frescuras e detesto quem tem... e me desculpem os frescos!
Meu traje: chinelos, bermudas e regatas... sem muito ti ti ti

Fui pobre... mas pobre mesmo
Não que eu queira dizer que hoje eu seja rico, mas com certeza sou bem menos pobre do que era antes

Sou lutador e perseverante
E por toda essa luta e perseverança que aprendi a ter, “the Oscar goes to...” meu pai e minha mãe, que nunca desistiram de seguir em frente mesmo diante de tantas barreiras e puxadas de tapete... a eles a minha eterna gratidão! Por terem insistido e apostado em mim e me fazer olhar melhor para o mundo, para mim e por eu ser um Ser que Pensa!
A minha querida irmã... toda a cumplicidade e o carinho que um ser humano pode ter... inclusive todos os defeitos com os quais temos que aprender a conviver – minha eterna aprendiz...
Não consigo dedicar somente um parágrafo de três ou quatro linhas para eles porque eles contribuíram com 50% para o que sou...

Ou outros 50%... foi tipo “do by your self”

Aprendi a gostar de lugares sem muitas pessoas, sem gritaria, no máximo um sonzinho legal no background e uma cerva bem relax...
Tenho aversão a locais com Babado Novo, Chiclete com Banana, Asa de Águia e coisas parecidas com “é o bicho é o bicho”, “a dança da manivela”... e se passarem na minha porta é ovada na certa... acho essa uma das formas de me lembrar de como eu ainda sou uma criança, um menino... vou ficar idoso e jogando ovo em trio elétrico... (risos)
Tá! Tudo bem! Eu admito que raramente eu vou pra esses conglomerados de suor, gente demais embriagada demais e cheiro de lança-perfume no ar... mas é só pra eu não me sentir cafona de mais ou um radical extremista!

Gosto de me apaixonar... e viver um love story
Mas no que concerne ao coração... humm
Não gosto nem de mexer nisso!
Até porque essa não é a hora.

Gosto dos beijos mais intensos
Dos perfumes mais marcantes
Das loucuras mais proibidas
Dos desejos mais latentes
Das dores mais amenas
Dos momentos mais intensos
Das risadas mais altas
Do silencio mais marcante
Do olhar mais profundo
Da beleza mais sublime
E tenho os sonhos mais reais que um sonhador pode ter

“Eu sou, eu vou, eu quero e eu vou conseguir”
Esse é o meu lema e parte do que sou: Perseverança
Não me gabo disso, mas acho bacana...
Quando quero alguma coisa, sai da frente

Gosto de jogar abertamente
Não gosto de movimentos bruscos ou suspeitos perto de mim
Estou sempre atento a qualquer movimento, pessoa ou objeto
Sou extremamente visual, principalmente a noite

Sou realista e sonhador; trancados dentro de um quarto escuro
Penso, sonho... e tento realizar...
Aprendi a admitir minhas derrotas e aceita-las com serenidade
Aprendi a defender minhas opiniões e opções...
E quem não gostar... aprenda a aceitar com serenidade
Não sou 100% oposição...
Também aprendi a assimilar outros pontos de vistas
A fazer sínteses e que o melhor método é o da tentativa e erro; salvo seguras previsões

Sou amigo. Tenho amigos.
Para se contar a toda hora,
Daqueles eternos e irmãos...
Muitos deles estão afastados outros tão próximos...
Mas vivos o suficiente para que eu lembre exatamente como eles são e de como eu os amo... independentemente de distância

Filhos. Na verdade filha...
A gente nunca imagina o que nós representamos para os nossos pais até que, de repente, somos pai, mãe, professores de um Ser que simplesmente É.
É como se tudo e todos os nossos motivos e esforços passassem a ser por, para, na intenção, por causa de... são nossas referências, do que fomos, somos e seremos... tudo depende de, e é por, e será para... não há como fugir... e tudo o que há em nós passa a ser eles e deles.

Adoro conversar em um ritmo,
Sorrir, dançar, cantar e ouvir... tudo em seu ritmo
A própria vida tem o dela...

...e por isso sou feito de vida e de natureza;
Sempre fui essa metamorfose ambulante que aprendi a ser...
Sou o que sou, o que penso e o que digo...
O que é muito melhor do que ter aquela velha opinião formada sobre tudo!

allys 29.09.06

terça-feira, 25 de março de 2008

Reencontro

;Havíamos desistido daquela nossa situação, eu pensei em esquecê-la, mas por ingenuidade não percebi era impossível esse feito. Metamorfoseei várias e várias vezes, me escondendo em meu casulo e tornando a liberdade ao anoitecer. Precisei de energia, água e comida, mas sem saber onde sequer procurar. Procurava uma linguagem simples que atendesse perfeitamente o meu ser, sem me atentar para o velho dicionário Aurélio da Língua Portuguesa que me observava inusitadamente a cada rabiscada.
Tranqüila e embriagadamente eu seguia meu caminho, fiz dezenas de cursos e amizades, me envolvi com quem me deu oportunidade e ganhei todas as mulheres que Eu quis. Por uma dezena me deixei cair em tentação sabendo que era arriscado de mais para seguir em frente. Apaixonadamente perdido encontrava o que eu queria quase sempre sem se dar conta de que faltava uma última peça em meu quebra-cabeça.
Esticava o tempo e retorcia o mar, por não ter idéia onde funestamente eu iria te encontrar. Por certo vários foram nossos encontros. Nos tornamos guepardos caçadores nas savanas concretas, um atrás do outro. Tu me aguardavas em ti; em mim, eu não sabia onde me encontrar. Sempre caído por aí sobre a mesa de um botequim qualquer não me faltavam línguas para pensar o que eu queria te dizer.
Nosso tempo ia ficando parado e o futuro, seguindo o passado, ia correndo atrás do próprio rabo. Eu que não queria uma dor de cabeça infernal numa sexta-feira após o expediente. Mas tudo vinha em minha direção. Lá na frente eu sequer imaginei com seria essa sensação.
Pesei. Já me extrapolavam as inúmeras cartelas de lexotan para aliviar aquela insônia ou qualquer dor. Não queria baixar a cabeça para tudo; era somente para me reservar ao direito de Estar Só.
Pisquei, e lá estava parado à porta da tua casa com uma latinha de coragem na mão esperando que me empurrasse escada acima. Fiquei diante de tua porta e por mais de uma era fiquei com os pés plantados em teu jardim. Não saberia o que me aguardava atrás da porta número 03. Resolvi arriscar. As mãos estavam tão tremulas que não consegui apertar menos que 03 vezes a campainha. “E agora o que será de mim? O que eu digo?” Pensei. Mas senti que a porta abria lentamente. Antes o olho-mágico já havia escurecido... quando eu “Por favor... – No andar de baixo!” Nossa. Não entendi por que diabos um olho-mágico, caolho, possuía clarividência.
“Ok. Vou descer”. E lá ia eu descendo a escadaria, parecendo uma romaria, batendo as pontas dos dedos polegares com os indicadores querendo acalmar a pressa. Abriste a porta antes mesmo que eu pusesse qualquer parte de mim ante o objetivo de te chamar.
Respirei. O sangue na bochecha já fervia escaldantemente na bofetada que eu esperaria levar. Mas não. Em troca recebi um olhar tão intrigante que me intriguei mesmo depois do “ENTRA”! Céus, eu me perguntava, mas era quase que uma afirmação, eu sou louco!?
Não sabia por onde começar. Em tese o começo já havia acontecido e terminado, apenas eu que não havia me situado, embora houvesse passado muito tempo apurando o acontecido.
Eu disse!
Ela sentiu que fui honesto.
Fui sem qualquer pretensão de satisfazer minhas intenções.
Não pedi. Nem reagi.
Só queria que em silêncio ela me dissesse o que sentia.
Foi quando ela me respondeu, muito pausadamente, num ápice bucólico mesclado com uma respiração um tanto medieval, como se já tivesse também ensaiado toda aquela situação e tudo o que diria se ali estivesse. Tomou um pouco de ar e com a voz tremula e pausada me disse:
“E eu que só queria te abraçar.
Poder te beijar e estar ao teu lado.
Compartilhar... um sorriso e... e... e... chorar as tuas lágrimas.
Não queria nada... nada além do impossível.
Acariciar tua pele macia e sentir o teu aroma suave e másculo... como a vontade que dá no cheiro de café ao amanhecer.
Queria te acompanhar nessa sua jornada incrível e perigosa”.
Por um segundo eu senti como o despencar em vão livre, sem fim, como naqueles sonhos que sonhamos caindo de algum lugar, até que, na mesma sonolenta e indescritível sensação, eu caí nestas palavras.
“Só queria estar do seu lado para cuidar de você”.
E eu que apenas queria te rever com um aperto de mão seguido de dois beijos frios em cada lado de tua face glacial, sem relutar numa despedida em um gostoso abraço forte e apertado com um imensurável sabor de quero mais.
Saí dali desacordado e sem noção de onde eu estava.
Passei dias num processo de RW e FF em minha memória, sem saber que eu estava desencadeando um processo de inquietude silenciosa e que cedo ou tarde eu não poderia controlar.
Eu queria desistir. Não poderia cavar tão fundo atrás de algo, não com as minhas próprias mãos. Foi quando eu decidir te ligar e pedir uma ajuda nessa minha busca. Nos encontramos novamente, te expliquei meus motivos e senti que estarias nessa comigo.
Desenterramos tudo o que era comum a ambos, nesse meio termo soubemos em estilo release o que andávamos fazendo no período que estivemos escondidos em nossa salva-vida. Chegamos ao fundo e nos encontramos lá embaixo. Eu comigo e ela consigo. Nos confessamos e percebemos que algo extremamente burocrático nos impedia de dar o próximo passo. Tão latente quanto permanecera em mim, tive absoluta certeza de que eu também estava impregnado naquela sensação que sentira ao estarmos a sós.
Paramos.
Não havia sequer condições de um olhar olho-no-olho. Havia o medo de um pecado. Pecado tão desejado e prazeroso, mas tão fundamentado para aquele momento.
Por um instante eu te abraçava, te beijava o pescoço vagarosamente e sentia teu corpo suspirar em busca do meu. Eu ouvia teu corpo me chamar sem nenhum sentido quando o meu buscava o teu. Naquele fechar de olhos, eu te devorei. Te beijava por completo acariciando teu corpo tremulo e colado ao meu. Retirava pau-sa-da-men-te tua camiseta preta e enquanto minha língua insaciável saboreava seu pescoço amadeirado; agarrava tua cintura e comprimia teu corpo ao meu enquanto nós podíamos sentir... te larguei. Não sei como, mas consegui. Pretendia não sair nunca daquele pensamento. Mas haviam as conseqüências ainda por vir; para ambos.
- Só para acabar logo com isso...
- Não me procures mais!
- Eu vou fazer o mesmo.
- Irei tentar. Mas se aquela vontade me tentar... ainda assim vou continuar resistindo, mesmo não querendo.
- É sério...
- Só farei isso quando tiver certeza de uma liberdade que não me faça parar.
- Eu não posso agora... vamos esperar mais um pouco... vamos dar um rumo pra os nossos caminhos, fazer nossas escolhas independente, e caso algum dia aconteça...
- Isso! Continuarei te desejando da mesma maneira
- Ai meu deus...
- Mesmo sabendo que não poderei tê-la em meus braços ao menos agora que o desejo está tão latente em mim...
- Quem sabe um dia... mas vamos acalmar as coisas que eu já não estou me segurando...
- Eu sei desse dia... mas agora devo me contentar somente em imaginar dezenas de cenas desse nosso vídeo-clipe surreal... aquele “contentamento descontente”...
- Você é demais!
- ...que meu corpo pede o teu e minha mente ilimitada não se permite não ir mais além.
- Então vá... eu te permito ir e espero que me permitas também, com a condição de que nunca se esqueças de que através de um abraço a gente pode muito mais além do que simplesmente estar lá...
- ...com certeza. Não tenhas duvida de que você foi desejado da mesma forma
- Quero você; e quero agora!




Allys 06.09.06

segunda-feira, 17 de março de 2008

A indefinição

Preso.
Prisão.
Abstinação.
Saudade.
Cala-frio (shhhh).
Desilusão.

Vontade.
Dever.
Coragem.
Falta de coragem.

Nascer.
Crescer.
Viver, apodrecer e morrer.

Resistir.
Desistir.

Rever.
Reviver.
Abraçar.
Relembrar.

Cansaço.
Destreza.
Limpeza.

Relaxa.
Tenta.
Levanta.
Anda.
Nada de cama.

Beijo.
Tesão.
Alucinação.
Sexo, sexo, sexo.

Alma.
Viva.
Sobreviva.
Calma.

Lucidez.
Nada disso.
Embriagues.

Passa.
Trapaça.
Desgraça.
Sem graça.

Esconder.
Achar.
Mentir.
Nunca afirmar.
Sempre negar.

Libertar.
Querer.
Poder.
Dever.
Não fazer, por quê?

Eu quero.
Faço.
Arregaço.
Qualquer bagaço.
E até cabaço.

Pena.
Foi pequena.
Menina linda não me afugenta.
Vem cá do meu ‘ladin’

Tortura.
Puxa tudo.
Tira essas gorduras.
Põe puta pra julgar.
Ministro pra dar.
E presidente pra estudar.

Quero garantir o meu lugar.
Que nenhuma quenga perneta venha disputar.
Se quiser, vá pra lá.
Não tem nem hímen.

Aqui jaz, alguém que ainda faz.

Estádio de futebol lotado.
Pebolim para otário.
Distração para alienado.
Eu ganho dinheiro é aqui do outro lado.

Avesso.
Contrário às avessas.
De cabeça para baixo.
De cabeça para baixo.
Mundo muito óbvio.
Dor de cabeça.
Remédio para enxaqueca.
E um torrador de neurônio para mim.
Por-fa-vor.

Não ouviu?
Eu sou obrigado?
Como assim?
Não tem nada a ver?
Quer tentar me entender?
Não tenta?
Porque não tenta?

Vem me salvar.
Me tira desse lugar.
Quero tentar amar.
Quero tentar beijar.
Não precisa transar.
Basta me salvar.
Tenho saudade.
Muita saudade.
Infinita saudade.
Não desiste.
Não me deixa desistir.
Não precisa que seja assim.
É só me tocar.
Pra que eu possa sentir.
Sem ter que mentir.
Sem ter que negar.
Não me deixa implorar.
Mas se você quiser.
Só se quiser, eu IM-PLO-RO!
Sei que não vai ser preciso.
Sabes que vou contigo.
Eu vou me afogar.
Mas só se você não me procurar.
Sinto que vens.
Sinto aquele bolor gélido no estomago.
Calafrios.
É você.
Sei que estás aqui.
Olha!
Senti o seu cheiro, seu aroma de canela e mel.
É você.
Estou aqui.

Num dia eu nasci, logo n’outro morri.
Não sei quanto tempo ficarei aqui.
Mas terei que partir.
Com ou sem.
Terei que ir.
Meu caminho, só eu posso seguir.
Mas a vida sem ti.
É como embuchar sem parir.




Allys 09.01.06

quarta-feira, 8 de novembro de 2006

Artigo Indefinido

(para ler ao som de Portshead – Glory Box)


Artigo Indefinido

Estou escrevendo para ti porque sequer consigo escrever para mim e em toda essa reviravolta... volta e meia sou meio eu...
só hoje vivo em mim o que não pude em ti...
hoje o que pode ser, foi... e o que nós somos?
fomos vários e multicoloridos numa única realidade em preto e branco
tu era em mim o que faltava em mim mesmo...
sou aqui o resultado metamófico do que fomos
e com toda ternura ainda sustento tu em mim.
já não sei mais explicar o inexplicável mundo dos homens,
e já não há explicação para tanta inexplicação.
quase que me complico para chegar aqui, mas entre um
tropeço e outro uma mão amiga não esteve ali... só a mão...
só... e a mão... e eu só, tropeçado ali no chão.

Quando acordei, estava meio indefinido... eu, tu e o mundo... tudo foi por agua a baixo. Meus sonhos não foram sonhados por completo, sempre tinha um sonho que se sobrepunha ao meu e dentro deste, haviam mais e mais sonhos para sonhar sobre meu sonho. Acabei ficando assim, no meio de tudo. A meio caminho daí e a meio daqui... sempre meio atrazado, meio surpreso, meio afastado de tudo que eu quis, meu sonho meio sonhado... meio feliz e meio triste... até minhas lágrimas foram meio derramadas e parte delas meio evaporadas. Todos os planos meio planejados, foram também meio realizados.

Depois que você foi embora... tudo ficou meio mais triste. Perdi o fio da meada e aí já não fazia idéia em qual lado das metades eu estava. Metade foi e metade ficou. Me tornei meio bonzinho e um pouco malvado... afinal nada parecia estar meio do meu lado. Tudo por aqui correu bem... e ainda corre. Meio pra frente e meio pra trás. O pouco do que restou... deixa eu ver...hummm... só lembro pela metade. Fotos, abraços, beijos, ensaios, sobe-e-desce, amassos e amassos... tudo por inteiro... na memória: só a metade.

Porque tudo em mim que eu tinha de mais vivo
Cortaram a metade: o mais e o vivo
Agora é meio mais e meio vivo.
Cadê tudo o que era intenso e com fervor?
As pessoas meio que sumiram... e só as fotos contam a história, naquele momento, por inteiro.
“Parei, e vi como que em flash back...”*
Parti para nunca mais voltar... a outra parte ficou...
Cresceu... conseguiu um emprego, casou e teve filhos...
Ficou meio careta e meio rebelde
Vestiu uma boa roupa e aplicava golpes de sacana
Viveu meio assim: dia e noite... sabe explicar o porque de “sol da meia noite”?
Fazia sol em plena meia noite
Saía andando por aí meio sem caminho
Meio perdido e meio se achando...
De noite era ele... e de dia era meia-noite
Ele era impreciso, de pura imprecisão. Foi meio anoréxico. Apertava um pela metade e desse mesmo degustava só a metade e só dava para viajar até a metade do caminho onde pensava que iria te encontrar. Quando se apaixonava... não sabia onde estava. Sempre meio perdido. Essa parte era sempre compromissado mas não estava nem aí para o resto do mundo, não era nem a metade do que seu outro meio aparentava ser.

Tudo tinha começo e meio; e o fim era muito distante.
Nada de meio nesse ponto.
No tempo sempre ficou vago a parte da história mais interessante,
Era quase tudo ao mesmo tempo; a fração dentro da fração
Ficaram as boas coisas, as boas causas de nossas lutas.
Sinistro ficou o tempo depois de tantas festas e farras a beira-mar
Noites a dentro que sempre nos reunia e fazia o tempo passar
Todos tinham um inimigo em comum: o medo do próximo passo

Mandavamos mensagens para o além... que iria muito além daquele ponto
Os trocadilhos sempre faziam bem
Meio bem, meio mal.
Nosso comportamento era tudo o que não queriam
Sempre fui a mais negra dentre as ovelhas
A ovelha-lobo
Que fazia parte daquela outra parte debandada
Em busca da vida que não pude ter nem sonhar se tivesse deixado que me levasse
As noites sempre tentava morrer
De morte morrida e induzida
Requisições e documentos não faziam sentido nesse caminho
Aqui basta seguir em frente, não precisa pedir licensa para passar
Todas as portas aqui estão abertas

Entre um gole de vinho e outro conversavam eu e minha embriaguês
Esta não falava nada-com-nada... sempre em grau etílico elevadíssimo
E instigada a qualquer estímulo involuntário que aparecesse
Eu, continuava sempre o mesmo
Sempre estimulando uma reação em cadeia
Cavei túneis até, e facilitei fugas milhares de vezes
Eram minhas fugas

Nunca gostei de ser sujeito qualquer
Gosto de definir, mesmo que continue sendo indefinido
Os artigos sempre vinham antes das boas notícias
E pegava

Não haviam marcas nos rostos dos descarados
Mandavam ir arrancar as uvas das viúvas e correr
Aquelas velhas sem vergonhas adoravam conversas bobas de gente enterrada
Acabavam enterrando elas mesmas num monte de merda
Eu corria e deixava aquela massa homogenea pra lá
Jamais liguei para o que elas pensavam
Corria antes que algum pensamento pudesse me atingir

A palavra sempre na borda do frasco
Abria um e bebia frases inteiras
Não era sopa de letrinhas, a identificação era impossibilitada
Mas cruzava todas elas em cheques falsificados

O outro era malando
De passear pelas calçadas pedindo esmolas e sair de carrão por aí
Não precisava ter nenhum
Bastava a vontade de ir... até onde ninguém o pegasse
Ele era uma gaiola dentro de si, guardando um passarinho com as portas abertas
Percebia qualquer movimento ou um bater de asas que vibrava por todo o corpo
A vontade que tinha mesmo era de voar mas tinha medo de altura
Para tantas loucuras, não havia espaço para sentir medo
Com uma névoa sobre os olhos, cada um via de uma forma cada movimento
Em lados opostos, sempre se opunham a ele mesmo, cobrindo inclusive a retarguarda

Ainda conseguia ouvir a batida da nossa música... “tun tá tun dun, tá tun dun, tá tun dun...” aqueles graves batendo como coração calmo e alvoroçado. Eu te devorava e tudo mais e em mim só aquele ardor; sentia-me reencarnado, cada batida um orgasmo cósmico; lembro com detalhe daquela penumbra que envolvia cada momento e nos levava ao deleite das boas coisas da vida. Transávamos um ou três baseados e viajávamos a noite toda sem ter que informar a qualquer nosso destino. Não precisávamos de asas, pois era tudo tão leve que bastava nossa respiração ofegante para levantarmos vôo e sair sem destino previamente definido.

Sempre preferi participar das grandes máfias, o outro não... estava mais preocupado em consertar o desconserto antes da bifurcação. Corria atrás do próprio rabo. Um cão sem osso pra roer. Tudo aqui é uma grande e enorme máfia; sempre tem um jeito de levar vantagem vendendo doce. (risos)
Aqui tudo fede a perfume importado
Pneus sempre queimam o asfalto, o próprio e intocado
Ando a três dedos do chão que é pra não cansar
Fodo 7 vezes por semana e mando bala em muros pra demarcar meu espaço
Saio pelas ruas sem ter nada pra fazer
Vez ou outra dou uma de mané só pra ver qual é que é
Ver os malandros em que não se deve confiar e perceber no olhar que alguém está se achando esperto demais; não é nenhum teste, é somente para satisfazer a perspicácia e dar umas risadas por dentro
É sentir-se um Deus aparentemente mortal; ok, admito, é um teste, onde o único aprovado sou eu

Quase sempre estive do outro lado do muro, espiando por brechas que algum pedreiro havia deixado justamente para aquela finalidade, dali viam-se vultos e conversas pouco excitantes.
Tudo ou nada eram uma constante dúvida. Ou tudo sem nada ou nada sem tudo; queimava lembranças que não queria guardar trancado no meu quarto vazio e percebia que as lembranças viravam fumaça pálida e sobresalente, em pouco tempo esmaecia; mas continuavam lá. Era uma tentativa inútil de escapar. Quanto mais queimavam mais eu me aquecia e via claramente o gelo de meu suor congelado derreter.
1, 2, 3... 5 horas da manhã e eu aqui com as olheiras arrastando no chão e tropeçando como bebado vagabundo. É, finalmente mais um dia, e aqui estou eu. Não havia motivos para aquela preocupação, na realidade nada o preocupava, era angústia com ansiedade e um pouco de ressaca. Este sim era louco. Louco que julga e dá a sentença, atira pra matar olhando no olho e depois se contorce todo estralando cada osso do corpo; só não era profissional por falta de regulamentação.

Uma vez era este que estava sendo observado badernando, sentiu um cala frio subindo a espinha; olhou por uma brecha naquele muro chapiscado e cheio de lodo e se deparou com ele mesmo olhando-se olho no olho, se é assim que eu posso dizer; era a mesma cor de olhos, as mesmas marcas na irís... de repente um fio os ligavam... se bem que a corda era muito mais forte de um dos lados, e havia uma resposta meio óbvia, advinhem: as pupilas estavam dilatadas do outro lado do muro. Mas lá do outro lado, o “são” conseguia se salvar.

Caminhei mais de mil léguas sem um copo d’água, nem parei pra mijar. As outras mil léguas me rastejei. Me fingia de morto que era para que me levassem pra casa. Parei no meio do caminho e me encontrei; costumava viajar muito e ir até o final, este não era tão simples assim. Jogava cartas comigo mesmo e tinha que prestar atenção se eu não estava me trapaceando. Um tão honesto, outro tão lãdrão.

Deixava muitos passarem na minha frente que era pra não ter que olhar pelo retrovisor. A visão era direta no alvo; bastava apertar o turbo e lá eu me espatifava. Realmente, eu confesso, era muito engraçado ver o desespero no rosto dos outros, e ele ainda tentava se fazer de inocente... e não havia quem não acreditasse.

Em todos os lugares tinha um som que completava; tenho certeza que ele não era o único a sentir isso. E cada batida soava como um encostar de um desfibrilador em alta voltagem. (risos) ele amava sentir aquilo e, modéstia parte, ele ficava ótimo naquele rítmo; não conseguia passar um segundo sem admirá-lo. Sempre radiante e intocável. Via-se os raios em volta dele e ninguém ousava sequer chegar próximo. Adentrava qualquer lugar, bastava aquele olhar profundo e gelado combinado, quase sempre, com uma leve mordida no canto direito dos lábios inferiores e lá ia ele, em todos os lugares. Nunca comprou um bilhete para entrar. Sentia um pouco de inveja, pois sempre entrava sem um centavo no bolso e saía como bem queria; era descarado por natureza.

Ele não tinha leis, senão as dele que ele mesmo formulava e ainda assim conseguia infringir boa parte delas. Essas não serviam para mais ninguém, não tinha o que discutir e meio termo não existia quanto a isso; piedade Deus tenha daquele que ouse discutir qualquer artigo ou parágrafo; suas leis eram próprias e únicas, não repetiam-se jamais, como o tempo.

Ah, sim, tempo. Não discuto sobre isso; meu tempo é meu tempo. Retardado ou acelerado de mais mas é meu. Me recuso a andar de relógio pois meu tempo é extraterreno e meu dia tem 83 horas, 08 minutos e 28 segundos... aguenta? Não? então dorme suas 24 horinhas mesmo que é pra recarregar as baterias por completo. Imagine o tempo entre uma gozada e outra. Tinha que ser frio e calculista para aguentar. Por isso que eu não ponho, sob nenhuma hipótese, relogio em lugar nenhum. Tempo é relativo; a mim claro. Gosto de ver o tempo passar e passear por aí observando as oportunidades de fisgar um navio em alto mar.
E lá estava eu no alto do mar, de lá pra cá as coisa mudam um pouco de lugar. Eu, daqui pra lá, e, aqui, daqui pra cá. Mudei meu ponto de vista várias vezes que era pra ver onde melhor me encaixar. E advinha onde eu fui parar: no meio e do outro lado de lá.

Detestava trabalhar honestamente e sempre dormi de mais, mas sobrava-me bastante tempo para vadiar onde bem quisesse; jamais parava. Fazia tudo bem apressado, pois com um dia tão curto quanto o meu não podia perder tempo com nada. Foco. Alvo. E eu a flecha. Espreguiçava, soltava e...tchuuunnn... ía de cabeça; reto e empenado encravava em qualquer lugar.

Encostei na porta, acendi um cigarro, dei uma olhada no movimento ao redor: tudo estava sob controle. Entrei no carro de não sei quem, dei mais um trago no meu cigarro; acionei a ignição – o som ligou – o motor rosnava ao som dos trovões... agora sim posso ir a qualaquer lugar sem sair do meu lugar. As sombrancelhas eram franzidas e quando parava nos semáforos apenas lenvantava uma por vez, costumava observar todo o movimento e avaliar os riscos. Baixava os vidros e punha o braço pra fora da janela e estendia a mão esquerda que era para compartilhar sua tristeza com o mundo... os dedos sempre batucando a porta do carro. Dava outro trago e passavam as luzes da cidade serena. As segundas-feiras eram as melhores; só profissionais nas ruas. Parava em algum lugar e tomava algumas latas de cerveja. Parado, agora ele era a referencia para quem passava, inclusive para a meia noite. Monumental, fico aqui parado analisando todas as catástrofes ocorrendo dentro de mim e refletindo no mundo. Sou o homem bomba; não uma bomba de bosta, mas uma bomba atômica ali parada e ninguém desconfia de absolutamente nada.

Costumava voltar apenas sonolento... ía com sono, e lento. Naquelas horas não havia motivo para pressa, a contagem regressiva acabara de começar e não importava a velocidade que se ía, o tempo sempre ía contra ele.
E eu também ía contra; a razão do tempo não tem lógica... se basta nascer para morrer, porque contamos o tempo? Para sentir o relógio parar? Não faz sentido. Busco uma maneira de entender tudo isso mas aparento estar muitíssimo longe.

Detesto ficar só. Essa é uma palavra que, sim, merece ficar só. Só, lá no cantinho dela; põe um cobertor e deixa ela bem quentinha que é pra dormir até um pouco mais tarde e pra eu não ficar com ela. Eu na minha e ela da dela. Gosto de trapacear, embora seja por demais honesto, e, vez ou outra, coloco uma caixinha e meia de lexotan no suco de cabeça que é pra ela embalar nas baladas e relaxar um poco mais; sobra-me um pouco mais de tempo para ficar a só comigo mesmo. Nada tenho contra o fato de ficar só, mas é que tudo demora mais e some a paciência para poder me tolerar em minha companhia. Nesses momentos os surtos já são previsíveis.

Papéis. Números. Letras. Telefone! Por favor, faça-me uma ligação para o além e passe para meu ramal. Alô. Como estão minhas telhas? Ahhh... Perfeitas! Ficarei na última sala, naquela escondida de todos, mande reservar e não quero goteiras! E apesar daquele cheiro de mofo já não me importava em estar morto. Por isso não estou nem aí. De vir para cá, já vi muitos desistirem logo na aula inaugural. Pintarei um buraco na parede e quero ver neguinho pulando de cabeça; mas antes preciso que assinem o protocolo.

Não quero mais ser imortal... quero o sentido contrário: agora Eu saio da história para entrar na mortalidade. Cansei. Quero é continuar minha jornada de volta a terra perdida. A terra do nunca, nunca. A reforma agrária não sai meeeeesmo.
Sinto-me enjoado em vôo livre quando não estou em êxtase. Pra falar a verdade de uns 32 segundos pra cá tenho me sentido enjoado de tudo que está ao meu redor.

* Trecho extraído de livro Só de Bianca Ramoneda